O futuro do trabalho e alguns desafios presentes: uma reflexão a partir da Psicologia do Trabalho

Prof. Carlos Eduardo Carrusca Vieira e Prof. João César de Freitas Fonseca
professores da FAPSI – Faculdade de Psicologia da PUC Minas

Uma reflexão contemporânea sobre o futuro do trabalho impõe vários desafios. Neste texto, importa inventariar pelo menos três deles, ainda que brevemente, para pensar, em diferentes perspectivas temporais, os planejamentos e as ações em uma abordagem que não se reduza às tentativas tão frequentes de oferecer recomendações simplistas e estritamente individuais para problemas sociais complexos.

Em tal abordagem, o primeiro desses desafios é a compreensão do conjunto de situações vivenciadas atualmente, que inclui a multiplicidade de formas de trabalho, suas relações com a sociedade e com a produção econômica, nos planos local e global. Podemos compreender, por exemplo, em suas características mais gerais as lógicas da gestão algorítmica que controlam o trabalho uberizado; a insegurança cotidiana da classe trabalhadora, agravada pelo desemprego estrutural e pela precarização laboral; os problemas de esgotamento profissional (Síndrome de Burnout) e quadros depressivos que acometem trabalhadores; ou os casos de racismo e sexismo nos ambientes laborais. Todavia, se por um lado, a elucidação dessas situações pode conduzir-nos a aprendizados diversos, exige-se, para o aprofundamento das análises e transformação do mundo do trabalho, um entendimento mais profundo sobre o sentido desses acontecimentos, de suas determinações mais fundamentais e da lógica que as impulsiona.

O segundo desafio, conexo ao primeiro, refere-se assim à necessidade de situar os acontecimentos e as transformações atuais operadas no mundo do trabalho no curso da história e, em particular, da história de desenvolvimento do modo de produção capitalista. Entender o passado é fundamental para entender o presente e se preparar para o futuro. Os modos de produzir e reproduzir a nossa existência material e social são historicamente localizados e, ao contrário do que alguns defendem, não são impostos por determinações metafísicas ou espirituais. Não há como desconsiderar que a história de enfrentamento das classes trabalhadoras para garantir seus direitos inclui a crítica dos discursos fatalistas de que “as coisas são assim mesmo” ou “sempre haverá ricos e pobres”, que nada mais são do que a naturalização das ideologias de classe. O momento atual é uma etapa específica em desenvolvimento no modo de produção vigente que se reproduz guardando intrínsecas relações com as suas determinações e leis econômicas mais fundamentais. O fato de a sociedade produtora de mercadorias estabelecer-se dessa maneira não autoriza, entretanto, profecias sobre o futuro, como se a história fosse determinada a priori. A atual configuração do mundo do trabalho e as lógicas que a presidem, assentada em estruturas econômicas, jurídicas, políticas e socioculturais, anuncia rumos e transformações, mas supõe incertezas no que tange ao conhecimento do futuro da história.

O terceiro desafio: reconhecer que, como sociedade, desenvolvemos as forças produtivas e a capacidade de produzir bens e serviços. Não obstante, embora para alguns o estágio atual seja equivocadamente considerado como o ponto de chegada, o cume do desenvolvimento, ainda experimentamos, em larga escala, a miséria, a fome, o subdesenvolvimento, a desigualdade, a injustiça social, a devastação ecológica e o acirramento de conflitos geopolíticos, religiosos e econômicos. Isto, ao mesmo tempo em que se verifica a concentração de bens e poder aquisitivo nas mãos de poucos, testemunha-se um aprofundamento da miséria social e material. A sociabilidade vigente aprofunda o desenvolvimento de subjetividades cada vez mais violentas, intolerantes, e o paroxismo do narcisismo, do egoísmo e da indiferença para com a coletividade. Na sociabilidade do valor de troca, o indivíduo como medida tem consequências graves. A produção e a distribuição da riqueza têm se dado historicamente em condições assimétricas e injustas. A cada dia fica mais evidente que temos de usar nossas possibilidades criativas para pensar processos de desenvolvimento que respeitem o meio ambiente, diminuam a desigualdade social e contemplem a diversidades dos modos de vida.

Encerrando esta breve reflexão, pode-se afirmar que destas questões decorre uma pergunta fundamental: Quais são as respostas que o trabalho, como atividade humana sine que non, produtora da história humana, e toda a classe trabalhadora podem dar a esses problemas? Talvez importe lembrar que disto depende o futuro das próximas gerações. De qualquer maneira, a necessidade de manter o pensamento crítico é inegável, fazendo lembrar o escritor português José Saramago: “tudo no mundo está dando as respostas, o que está faltando são as perguntas”. A Universidade, sabemos, é um dos espaços privilegiados para, em interlocução com a sociedade, elaborá-las.

Artigo de Carlos Eduardo Carrusca Vieira e João César de Freitas Fonseca, professores da Faculdade de Psicologia da PUC Minas na Unidade São Gabriel.

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